Já ouviu falar de matriarcado? Eles ainda existem; veja vídeo
9 Oct, 2026
Imagine um lugar onde quem dá a última palavra é sempre uma mulher, onde as mulheres são donas de todas as propriedades, cuidam de todo o dinheiro e onde todas as mulheres têm poder sobre o próprio corpo. Acredite se quiser, mas esses lugares ainda existem. São poucos e pequenos, mas existem. Um deles, conhecido como Reino das Mulheres ou O Último Matriarcado, fica num vilarejo de 40 mil habitantes no sudoeste da China. Lá, entre as províncias de Yunnan e Sichuan, vive o milenar povo mosuo. Considerado pelo governo chinês como uma minoria étnica, eles mantêm várias tradições bem diferentes das do resto do país. Não têm por exemplo o conceito de casar no papel ou morar com um cônjuge. Aos 13 anos as garotas ganham o direito de ter o próprio espaço para viver. Podem namorar e ter filhos, mas num modelo chamado de “walking marriage”, ou casamento andante, sem contratos nem obrigações legais. Segundo Mara Carneiro e André Mafra, um casal de documentaristas brasileiros que viaja pelo mundo pesquisando estruturas matriarcais que sobreviveram aos séculos, embora existam parcerias de muitos anos entre os mosuos, são sempre os homens que visitam o quarto das mulheres e de manhã voltam para a casa da família. Se o casal tiver um filho, a criança será criada sempre pela família da mãe, com ajuda dos integrantes do clã materno. Nesse esquema que detalhei em outra coluna, o tio materno pode ter um papel na vida da criança maior do que o do próprio pai biológico. E o pai biológico vai criar os filhos e as filhas do seu clã. Se a relação entre o casal terminar, cada um já estará do seu lado. Não se fala em violência doméstica nem em mãe solo. Outro fundamento das sociedades matriarcais é a economia nas mãos da mulher. Além de a casa estar no nome da matriarca, ela não só gerencia todo o dinheiro produzido por sua família como decide com o que gastá-lo. Na tradição dos mosuos, a avó é a figura mais importante no clã e as propriedades são transmitidas sempre pela linhagem feminina. “As relações de poder são horizontais. A matriarca trabalha muito e lidera pelo exemplo. Não fica sentada no trono gerindo os recursos da comunidade. Quem tem poder é responsável por cuidar dos demais. Daí vem o respeito (da comunidade)”, contou Mafra. Apesar de não darem a palavra final, os homens também têm um papel relevante. São eles que fazem contato com clãs externos por exemplo. “Eu tenho a sensação de que o homem na sociedade matriarcal vive o melhor dos mundos. Não dá para você sentir pena de um homem que mora numa estrutura que vai privilegiar aquele clã em que ele também é cuidado.” Além da China, Mara e André já passaram por outros países, como México, onde vive o povo zapoteco, e a Estônia, onde as habitantes da Ilha de Kihnu cuidam não só a gestão do trabalho, da família e do dinheiro como também de funções religiosas - o local foi tema de uma outra coluna que discute se é o último matriarcado da Europa. Os documentaristas também mapearam outros povos com características matriarcais, como os gunas yalas, no Panamá, os khasis, na Índia, e até populações quilombolas e ribeirinhas na Amazônia. Em entrevista ao podcast Mulheres Reais, da Rádio Eldorado, Mara lembrou que mulheres fortes estão em todos os lugares do mundo e o que diferencia um matriarcado de um patriarcado é como a estrutura social reconhece e remunera essa força. “As nossas estruturas patriarcais costumam sufocar essa força, ou não valorizar, não reconhecer. Em sociedades matriarcais é ao contrário. Eu construo a sociedade em torno dessa força, reconhecendo e valorizando todo aquele trabalho”, explicou Mara. No vídeo que acompanha esta reportagem, eu falo mais sobre os últimos matriarcados do mundo. Confira!