Carros mais baratos: preços despencam e donos já temem prejuízo na revenda
22 Oct, 2026
Resumo Tiago Abreu não estava insatisfeito com o carro que havia comprado, pelo contrário. O problema começou quando a própria montadora anunciou um modelo maior, mais tecnológico e por um preço inferior aos R$ 169 mil que ele havia pago pelo seu GWM Ora 03 poucos meses antes. "Quando vi o anúncio, pensei: me dei mal. Porque o carro era maior, mais tecnológico e por um preço parecido", conta. A reação veio com o lançamento do Ora 5, em junho deste ano. O SUV elétrico estreou por R$ 159 mil, R$ 10 mil a menos do que o valor pago por Tiago pelo hatch. Na mesma época, a GWM passou a oferecer um bônus de R$ 20 mil na compra do Ora 03, reduzindo o preço promocional para cerca de R$ 149 mil. "Não estava insatisfeito com o carro, mas agora sei que vou perder mais do que esperava na revenda", lamenta. O receio de Tiago é compartilhado por consumidores que viram seus veículos ficarem mais baratos pouco depois da compra. Com a concorrência crescente, principalmente entre as marcas chinesas, montadoras vêm lançando modelos com preços agressivos, reduzindo tabelas e ampliando os descontos nas concessionárias. Para quem ainda vai comprar, a disputa é uma boa notícia. Para quem acabou de tirar um zero-quilômetro da loja, porém, surge uma preocupação: quanto valerá esse carro na hora de vendê-lo? O publicitário Leonardo Fernandes conhece bem essa angústia. Ele passou meses pesquisando carros chineses antes de escolher um MG S5, pelo qual pagou cerca de R$ 195 mil. Em novembro do ano passado, o SUV elétrico estreou com preço promocional de R$ 195.800 na versão Comfort. Menos de um ano depois, em setembro de 2026, a MG anunciou a mesma versão por R$ 179.800, uma diferença de aproximadamente R$ 16 mil. "Estou satisfeito, mas o preço não para de cair. Estou vivendo em ansiedade por isso, todo anúncio é uma agonia", brinca. A BYD também ampliou os descontos em 2026. Em setembro, o Song Pro GL, com preço de referência de R$ 189.990, chegou a ser oferecido por R$ 161.490, diferença de R$ 28,5 mil, em uma campanha de venda direta para pessoas físicas. No mesmo período, o King GL apareceu por R$ 147.990, ante R$ 172.990, redução de R$ 25 mil. Já em outubro, concessionárias passaram a anunciar o Dolphin por R$ 129.900, cerca de R$ 20 mil abaixo do preço habitual. São campanhas comerciais, algumas com condições específicas de financiamento ou limitadas aos estoques, e não necessariamente cortes permanentes de tabela. Ainda assim, mostram a intensidade da disputa por compradores e explicam a preocupação de quem adquiriu esses veículos antes dos descontos. Queda no zero-quilômetro afeta o usado A preocupação dos consumidores tem fundamento, segundo Cássio Pagliarini, da Bright Consulting. Quando uma montadora reduz o preço de um carro novo, a mudança tende a pressionar também as cotações dos exemplares que já estão nas ruas. "A redução de preço de um veículo novo vai impactar igualmente os usados daquele modelo, como se o preço mais alto nunca tivesse existido. O valor do veículo usado cai imediatamente", afirma. Na prática, o comprador de um seminovo compara o valor pedido pelo usado com o preço pelo qual consegue adquirir um carro novo naquele momento, e não com o que seu primeiro proprietário desembolsou meses antes. Se um veículo que custava R$ 200 mil passa a ser oferecido por R$ 180 mil, por exemplo, fica mais difícil justificar um preço de revenda baseado na tabela antiga. Pagliarini observa que o mesmo fenômeno pode ocorrer quando uma montadora atualiza equipamentos ou tecnologias de um modelo sem esperar a mudança de ano-modelo. Nesse caso, os veículos anteriores podem perder atratividade, mesmo que sejam relativamente novos. O consultor chama a atenção para a velocidade dessas alterações entre algumas fabricantes chinesas. "Os chineses não parecem ter muita atenção para o ano-modelo. Pode ser que passem a respeitar com as reclamações dos clientes", avalia. Segundo ele, essas empresas tendem a ajustar rapidamente os preços quando as vendas não correspondem às expectativas. Se o volume comercializado não atinge o objetivo, podem reduzir os valores até encontrar um patamar considerado adequado. Se a rentabilidade não for suficiente, também podem retirar o produto do mercado. Desconto temporário ou redução permanente? Nem toda promoção, entretanto, representa o mesmo risco de desvalorização. Milad Kalume, especialista do setor automotivo, explica que é preciso separar os descontos pontuais das mudanças estruturais de preço. No primeiro caso, a montadora pode oferecer condições especiais para reduzir estoques, estimular vendas ou ganhar participação de mercado. Se a promoção termina e os valores voltam aos patamares anteriores, o impacto sobre os usados tende a ser mais limitado. O problema é maior quando as reduções se tornam permanentes ou quando o lançamento frequente de produtos mais modernos obriga a empresa a reposicionar os modelos anteriores. "Quando você compra um carro nessa circunstância, você tem uma mudança de preço estrutural, ou seja, o preço do carro cai de fato. E aí a gente tem uma perda significativa de valor de revenda do veículo", explica. Para Kalume, a disputa entre fabricantes ainda não terminou. Ele acredita que 2027 poderá trazer uma nova rodada de incentivos comerciais, especialmente diante da perspectiva de estabilidade nas vendas. A consequência seria uma pressão adicional sobre quem comprou um veículo por valores mais elevados. Não são apenas os carros chineses Embora os relatos de Tiago e Leonardo envolvam fabricantes chinesas, as reduções de preços não estão restritas às marcas recém-chegadas. Em junho de 2026, a japonesa Mitsubishi anunciou uma reestruturação dos preços de toda a sua linha brasileira, incluindo Eclipse Cross, Outlander PHEV e Triton. Os cortes chegaram a R$ 55 mil e, diferentemente de uma promoção pontual, foram apresentados pela empresa como um reposicionamento dos preços de tabela. A Volkswagen também passou a oferecer abatimentos de até R$ 10 mil para o T-Cross, enquanto modelos da Renault, Fiat e Chevrolet apareceram em campanhas com descontos expressivos ao longo do ano. Em outubro, a Toyota anunciou ofertas com reduções de até R$ 54,6 mil, incluindo veículos das famílias Yaris Cross, Corolla, Hilux e SW4. Esses exemplos, porém, não representam situações idênticas. Há reduções oficiais de tabela, ofertas condicionadas a formas de pagamento e bônus comerciais específicos. O impacto na revenda depende, entre outros fatores, da duração e da abrangência dessas condições. Os movimentos refletem uma mudança mais ampla no mercado. Segundo levantamento da Bright Consulting, o preço médio efetivamente pago pelos consumidores por veículos leves novos passou de R$ 157,7 mil em junho de 2025 para R$ 152,1 mil em junho de 2026, uma redução de 3,5%. No mesmo período, o preço médio público sugerido caiu 1,5%, indicando que parte importante da disputa ocorre nos descontos negociados na venda. Quem comprou vai perder mais dinheiro? A desvalorização é esperada em praticamente qualquer carro novo. O veículo começa a perder valor comercial após o emplacamento, e fatores como quilometragem, conservação, demanda e oferta de usados influenciam seu preço. A diferença agora é que o consumidor pode enfrentar uma perda adicional provocada pela própria estratégia comercial da fabricante. Kalume alerta que uma sequência de reduções pode prejudicar não apenas o patrimônio do proprietário, mas também a relação de confiança com a marca. Para ele, quem se sente prejudicado pela queda de preço logo depois da compra pode simplesmente decidir não voltar àquela fabricante. Isso não significa, porém, que toda redução de preço posterior à venda dê ao consumidor direito a um ressarcimento. Em regra, uma montadora pode alterar suas condições comerciais, desde que respeite as ofertas e os contratos já firmados. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.