IA ajuda corretores de imóveis, mas experiência humana é decisiva
28 Oct, 2026
A Inteligência Artificial (IA) começa a transformar a rotina dos profissionais do mercado imobiliário, facilitando pesquisas, organizando informações e ampliando as possibilidades de divulgação dos imóveis e, consequentemente, das vendas. No entanto, a tecnologia encontra limites quando o assunto é compreender as necessidades e expectativas de cada cliente. A afirmação é de Marina Brasil, corretora especializada em imóveis de alto padrão na Região Serrana do Rio. Segundo ela, a ferramenta pode tornar o trabalho mais ágil, mas não substitui a experiência e a sensibilidade necessárias para identificar o que uma pessoa realmente procura. A coluna conversou com a especialista sobre o tema. Confira: 1 - Como a IA tem sido incorporada à sua rotina como corretora de imóveis? R: Tenho utilizado a IA como uma ferramenta de apoio, principalmente para questionar ideias, ampliar meu repertório e enxergar novas possibilidades. Na preparação de vídeos e conteúdos, por exemplo, exploro diferentes caminhos antes de definir a abordagem. A tecnologia também ajuda a agilizar pesquisas e organizar informações, liberando tempo para aquilo que considero essencial no meu trabalho: ouvir o cliente, observar, conversar e construir uma relação de confiança. 2 - No mercado de alto luxo, entender o perfil do cliente é fundamental. Até que ponto a IA pode contribuir nesse processo? R: Acredito que existe uma fronteira que a tecnologia não ultrapassa: a capacidade de compreender pessoas. A definição do imóvel desejado nem sempre está relacionada apenas à metragem, à localização ou ao número de quartos. Muitas vezes, o cliente procura algo que ainda não consegue expressar claramente. Por isso, não utilizo a IA para tentar decifrar o perfil de uma pessoa. Prefiro construir essa compreensão por meio da conversa e da observação. Meu diferencial está justamente em perceber aquilo que, muitas vezes, o cliente não verbaliza. 3 - Você poderia dar um exemplo de como essa percepção faz diferença na busca por um imóvel? R: Às vezes, o interessado não procura simplesmente uma casa com determinada metragem. Ele pode estar buscando um lugar silencioso para ler um livro pela manhã. Entender isso exige sensibilidade. É quase um trabalho de detetive. A IA pode organizar informações, comparar características e acelerar tarefas, mas transformar uma conversa em compreensão exige escuta, sensibilidade e experiência. 4 - Existe o receio de que a IA substituirá o trabalho dos corretores? Como você enxerga essa possibilidade? R: Vejo essa questão de outra forma. A IA pode assumir tarefas automatizáveis e abrir mais espaço para aquilo que depende das características pessoais de cada profissional. Ironicamente, o que parecia que nos substituiria pode acabar criando mais oportunidades para o trabalho humano. Você coloca nas mãos da tecnologia aquilo que pode ser agilizado e ganha mais espaço para colocar em cena seu olhar, seu repertório e sua personalidade. 5 - O uso dessa ferramenta exige cuidados específicos quando envolve clientes de alto poder aquisitivo? R: Sim. Dados pessoais, informações financeiras, endereços e nomes completos dos meus clientes jamais são compartilhados com a IA. Meu trabalho também é deixar as pessoas protegidas, e jamais vulneráveis. A confiança faz parte da relação profissional e precisa ser preservada em todas as etapas do atendimento. 6 - Outro debate envolve o uso da IA na produção e na edição de imagens de imóveis. Onde está o limite entre valorizar um empreendimento e distorcer a realidade? R: Existe uma diferença muito clara entre melhorar a apresentação de um imóvel e criar características que não existem. Uma imagem excessivamente manipulada pode levar o comprador a visitar uma propriedade esperando encontrar algo que não corresponde à realidade. Isso é grave porque estamos falando de confiança. A tecnologia pode contribuir para uma comunicação mais atraente, mas precisa ser utilizada com transparência, sem criar expectativas que o imóvel não poderá atender. 7 - Qual deve ser, então, o papel da IA no futuro da profissão? R: Ela é uma excelente aliada do corretor, desde que seja utilizada como ferramenta, e não como substituta da experiência profissional. A IA pode tornar processos mais rápidos e ampliar nossas possibilidades de atuação. Mas a capacidade de ouvir, interpretar necessidades, estabelecer vínculos e compreender as particularidades de cada cliente continua sendo fundamental. No mercado de alto luxo, em que cada escolha envolve expectativas muito pessoais, a tecnologia pode ajudar a encontrar caminhos, mas a relação humana continua sendo decisiva.