Morre Roberto Maya, ator de pornochanchadas e voz histórica do SBT, aos 91
28 Oct, 2026
Roberto Maya morreu aos 91 anos na noite de terça-feira, em Campinas, após sofrer insuficiência respiratória. Ator, dublador e apresentador, ele ficou marcado na televisão pelo comando do jornalístico “Documento Especial”, exibido no SBT nos anos 1990. Eu já tinha terminado o almoço e deixado o prato na pia quando li a notícia. Aí não tem deboche que sobreviva: tem voz de televisão que a gente escuta uma vez e nunca mais esquece, e Roberto Maya era dessas presenças. À frente de “Documento Especial”, Maya ajudou a construir uma fase marcante do jornalismo televisivo brasileiro. O programa misturava reportagens contundentes, narração poética e uma atmosfera que fazia o espectador parar o que estava fazendo para ouvir. Eu fiquei olhando a cozinha em silêncio porque aquela voz tinha peso, tinha pausa, tinha uma gravidade que não se compra com cenário de LED e gritaria de estúdio. Era televisão feita para deixar assunto ecoando depois da vinheta. Nascido em Campinas, Roberto Maya começou no rádio, trabalhou como radioator e estudou na Escola de Arte Dramática da USP. Depois, passou pela dublagem, pelo teatro, pelo cinema e por emissoras como Excelsior, Tupi, Globo, Bandeirantes e SBT. Eu fui guardar os talheres e pensei numa carreira dessas: o homem atravessou rádio, novela, jornalismo, cinema e dublagem sem ficar preso numa etiqueta só. Hoje se chama versatilidade; naquela época, chamava-se trabalhar de verdade. No cinema, Maya atuou em filmes ligados à Boca do Lixo, polo paulistano que marcou as décadas de 1970 e 1980. Ele participou de produções como “A Noite dos Imorais” e “Os Rapazes da Difícil Vida Fácil”, mas fazia questão de diferenciar obras que considerava mais sofisticadas do rótulo genérico de pornochanchada. Em entrevista, ele resumiu sua postura com uma frase que diz muito sobre sua trajetória: aceitava participações, mas sem se expor ao ridículo. Eu respeito demais essa régua, porque há artista que atravessa décadas justamente por saber onde quer chegar e o que não aceita fazer no caminho. O SBT lamentou a morte e agradeceu a contribuição de Maya para a história da emissora. Eu fechei a cozinha e fiquei com a sensação de que a TV brasileira perdeu uma daquelas vozes que não precisavam levantar o tom para dominar uma sala inteira.