[Felipe Sales] Corinthians não tem direito de errar na escolha da próxima comissão técnica das Brabas

admin
4 Nov, 2026
O Corinthians anunciou a demissão da técnica Emily Lima na última terça-feira e, agora, inevitavelmente, precisará ir ao mercado para escolher o próximo comandante da equipe feminina. O cenário do clube, porém, exige calma e atenção para superar os diversos desafios que essa escolha terá pelo caminho. Em meio a tantas incertezas, o Corinthians não tem direito de errar. Atualmente, as Brabas vivem a pior sequência de vice-campeonatos de sua história, acumulando cinco finais perdidas consecutivamente. A série começou no Campeonato Paulista de 2025, quando a equipe foi superada pelo Palmeiras. Em 2026, perdeu para o Arsenal, da Inglaterra, na decisão da Copa das Campeãs, o Mundial de Clubes Feminino. Além disso, ficou com o vice da Supercopa Feminina, novamente diante do Palmeiras, perdeu a decisão do Campeonato Brasileiro para o São Paulo e, por fim, deixou escapar o título da Libertadores Feminina ao ser derrotada pelo Cruzeiro. A equipe alvinegra caminha para encerrar, pela primeira vez desde a reativação da modalidade, em 2016, uma temporada sem conquistar títulos. No momento, a única esperança de evitar essa marca é vencer o Paulistão Feminino. As Brabas enfrentam o Red Bull Bragantino nos dias 17 e 21 de novembro, pela fase de play-in, uma etapa antes das semifinais. Se dentro de campo o Corinthians tem falhado nas decisões, fora dele a situação é ainda mais preocupante. O clube do Parque São Jorge se aproxima de um endividamento histórico, com uma dívida próxima dos R$ 3 bilhões. O cenário financeiro tem reflexos em diversos departamentos, incluindo, obviamente, o futebol feminino. Ao longo da temporada, as Brabas conviveram com atrasos no recebimento de seus vencimentos, situação que gerou insatisfação dentro do elenco. Embora os salários pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e os direitos de imagem tenham sido regularizados em outubro, ainda existem pendências relacionadas ao pagamento de premiações. A instabilidade financeira, portanto, não ficou restrita aos bastidores e também passou a fazer parte da rotina das atletas. No mercado da bola, o Timão também encontrou dificuldades para reforçar o elenco. Na janela de transferências do meio do ano, não conseguiu realizar contratações, mesmo apresentando carências no grupo. O clube do Parque São Jorge chegou a negociar com a atacante Gabi Nunes, que elevaria consideravelmente o nível da equipe, mas não teve recursos para concluir a transferência ou apresentar uma oferta compatível com as condições da atleta. A situação chegou ao ponto de o Corinthians precisar de uma parceria com a patrocinadora Fatal Fans para viabilizar a renovação de contrato de Gisela Robledo. A empresa disponibilizou aproximadamente R$ 800 mil para custear os salários e 13º da atacante colombiana por mais uma temporada. Tudo isso em meio a venda recorde de Letícia Teles para o Al-Qadsiah, da Arábia Saudita, em uma negociação estimada entre 600 mil e 800 mil dólares (cerca de R$ 3,1 milhões e R$ 4,1 milhões na cotação da época). A transferência se tornou a maior venda da história do futebol feminino corinthiano, porém, não há nenhuma explicação sobre o destino dessa quantia. Contratações pouco utilizadas e mau desempenho dentro de campo É claro que Lucas Piccinato e Emily Lima também tiveram suas parcelas de responsabilidade pelo momento esportivo. O primeiro participou ativamente das contratações realizadas no início da temporada, quando chegaram Belén Aquino, Agustina Barroso, Rhaizza, Paola Garcia e Ana Vitória. Das cinco, apenas Belén conseguiu se estabelecer na equipe, enquanto as demais tiveram pouco espaço, seja por opção técnica de Emily, como nos casos de Paola e Rhaizza, ou por questões físicas, como Agustina e Ana Vitória. De fato, Emily Lima não conseguiu entregar a solidez e o domínio que sempre foram algumas das principais características das Brabas. Em raros momentos, o Corinthians apresentou um bom futebol, principalmente quando passou a atuar com um esquema de três zagueiras, dando liberdade para as alas e permitindo que Duda Sampaio chegasse cada vez mais ao ataque. Ironicamente, um dos melhores momentos desse Corinthians aconteceu justamente na Libertadores Feminina. Apesar da inconsistência apresentada na semifinal contra o Independiente Santa Fe, da Colômbia, a campanha era perfeita até os 52 minutos da decisão, quando a equipe ainda liderava o placar por 3 a 0 diante do Cruzeiro. A derrota representou o fim da linha para Emily Lima, mas os problemas vão muito além da troca no comando técnico. As próprias atletas reconheceram que as dificuldades extracampo, como os atrasos recorrentes da gestão do presidente Osmar Stabile e a falta de apoio público e institucional à modalidade, também tiveram influência no desempenho acumulado ao longo da temporada. Não se trata apenas de uma questão tática ou de escolhas dentro das quatro linhas. Se a situação das Brabas já é complicada, ainda existe a incerteza em relação ao futebol masculino, carro-chefe do clube e principal fonte de receitas. A equipe comandada por Clarence Seedorf ocupa a zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, com 36 pontos e na 17ª colocação na abertura da 34ª rodada. Um eventual rebaixamento teria consequências financeiras importantes para o Corinthians e, inevitavelmente, poderia afetar ainda mais o orçamento destinado ao futebol feminino. Existe, ainda, a indefinição sobre quem comandará o Corinthians a partir do próximo ano. No dia 28 de novembro, o clube do Parque São Jorge escolherá seu novo presidente para o triênio 2027 a 2029. Até o momento, quatro candidaturas foram confirmadas: André Castro, Ilmar Schiavenato, José Augusto Mendes e Rozallah Santoro. A inscrição de Sérgio Janikian foi inicialmente indeferida pela Comissão Eleitoral. Segundo Iris Sesso, diretora do futebol feminino, ela conhece os candidatos e pretende se reunir com eles para entender os planos de cada gestão para a modalidade. Além disso, após a decisão da Libertadores Feminina, a dirigente admitiu a possibilidade de redução do orçamento do departamento em 2027, justamente em meio ao endividamento do clube e às incertezas sobre a permanência na Série A do Campeonato Brasileiro. O que esperar para o futuro? Mas, afinal, o que fazer daqui para frente? Quem será o próximo técnico? Qual será o planejamento? Qual será o orçamento disponível? Haverá espaço para contratações? Quem permanecerá? Quem deixará o clube? O Corinthians precisará passar por uma reformulação? São perguntas que ainda não têm respostas e que tornam o momento ainda mais delicado. A incerteza toma conta do Parque São Jorge justamente meses antes de um dos anos mais importantes da história do futebol feminino brasileiro, quando o país receberá a Copa do Mundo de 2027. Cabe lembrar ainda que as Brabas também estão confirmadas na primeira edição da Copa do Mundo de Clubes, em 2028. A maior equipe da história da modalidade na América Latina chega a este momento em meio a um cenário de turbulência, enquanto seus principais adversários avançam na estruturação de seus projetos. Por isso, o Corinthians não pode tratar a escolha do próximo treinador como uma simples troca de comando. Os problemas das Brabas vão muito além da comissão técnica e não serão resolvidos apenas com a chegada de um novo profissional. A diretoria precisa rever seu planejamento, oferecer melhores condições de trabalho, dar estabilidade ao elenco e, principalmente, voltar a tratar o futebol feminino como uma prioridade. Durante uma década, o Corinthians construiu uma hegemonia que parecia distante da realidade dos demais clubes brasileiros. As Brabas se tornaram referência dentro e fora de campo, empilharam títulos e ajudaram a elevar o nível da modalidade no país. Mas o histórico de conquistas não garante que esse cenário vá se repetir nos próximos anos. O próximo presidente e a futura comissão técnica terão uma grande responsabilidade pela frente. Mais do que recuperar o desempenho esportivo, será preciso evitar que a instabilidade administrativa e financeira comprometa tudo o que foi construído desde 2016. Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão. 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